Diversidade é o sangue da Vida

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Recentemente viajei para dois Estados do Brasil. Sai do interior do RS para renovar meu visto americano no Rio de Janeiro. Dias após, fui passar minhas férias em Porto de Galinhas, na cidade de Ipojuca, em Pernambuco.

Ao retornar ao consultório, tive um diálogo muito interessante com uma paciente , procedente do Amapá. Ela me repetia que o  gaúcho “se achava”, ” era muito fechado”, sempre fazendo as mesmas coisas. Ela passava o ano inteiro esperando as férias para retornar à sua terra e visitar os parentes, com quem se sentia acolhida e feliz.

Essas experiências me fizeram refletir. Nossa tendência inicial é defender as nossas origens, como qualquer um defende a sua ideologia política, a sua formação acadêmica e profissional, o seu ” background”, a sua  pretensa procedência especial. Mas isso é uma ilusão produzida pelo orgulho. Posso ser orgulhoso da minha naturalidade gaúcha, mas isso é insuficiente para esconder as falhas que negava  a respeito das características do meu Estado natal.

Para contrabalançar o viés de que ”  a grama do vizinho é mais verde”, posso identificar as qualidades e os “defeitos” dos outros povos, tanto no território nacional , como no exterior. Penso que não são “defeitos”, mas d i f e r e n ç a s!  E diferenças não são necessariamente coisas incompatíveis, se soubermos aproveitar as vantagens que elas  agregam em nossas vidas.

Viajar amplia a nossa percepção, se estivermos imbuídos do espírito de tolerância e estivermos interessados em absorver as novas culturas. Viajar não amplia a vida de quem viaja para criticar. Mas quem aceita o mundo nas suas diferentes belezas, pode enriquecer o seu próprio mundo interior com paisagens renovadas, aromas, sotaques, hospitalidade, atenção e mesmo através dos supostos ” defeitos ” alheios.

Não consegui deixar de contrastar as culturas. E como vivemos num mundo globalizado, essa coisa de ufanismo e defesa da própria terra, sem propósito, como uma guerra, que não tem  propósito algum, fica fora da modernidade. É coisa mofada, é coisa arraigada não como raízes vivas, mas como ervas-daninhas.

O Rio de Janeiro me surpreendeu positivamente. Pernambuco me surpreendeu positivamente. E posso concordar com a minha paciente, sim “os gaúchos se acham”. Você tem razão, o fato de serem mais fechados  e viciados em trabalho não os faz melhores do que ninguém.

A propósito, eu nasci no RS, mas sou cosmopolita. Anotem. Discordo de várias coisas no RS, a começar pela cara fechada, a conversa retraída, a propalada “politização”. Vivemos ainda das glórias do passado histórico, contado na versão local. Não vou começar a malhar os defeitos do Estado, nem as deficiências no transporte de Porto Alegre. Mas elas existem. Trabalhar demais ou ” parecer trabalhar demais” é uma tremenda bobagem. A vida também é praia, mar, camarão fresco, lagosta, água de coco, paisagens exuberantes e o sol tostando a pele.

E ainda existe  mais mundo lá fora do país para ser visitado. Não espere a tão sonhada aposentadoria para começar a viajar. Quem não viaja, morre a cada dia, soterrado pelo pensamento velho, socado dentro da mente, cheio histórias recontadas e requentadas, do orgulho ultrapassado, da altivez ridícula,  enquanto o mundo progride e se moderniza.

Sou brasileiro e cosmopolita. Nasci no RS, mas não sou  um daqueles que pensa valer mais do que os outros. Para quem serviu o chapéu, você precisa viajar mais.  Para quem não se ofendeu, já deve ter viajado o suficiente para entender o meu ponto de vista aqui. O espírito divisionista que perdura no nosso Estado é uma verdadeira asneira. Se você quer só a região Sul, eu não abro mão das belezas do Sudeste, do Nordeste e das outras regiões que ainda vou conhecer e me encantar.

Viajar e levar consigo o preconceito, as manias e as preferências é perder a oportunidade de interagir com outras pessoas, aprender novas línguas, comer comidas exóticas, derrubar ideias preconcebidas( implantadas  por quem nunca viajou) e voltar uma pessoa melhor, mais interessante e mais feliz.

Antes de pedir o seu churrasco, coma um camarão. Antes de tomar um  suco de laranja , ouse se deliciar com um suco de açaí! Antes de ficar se congelando nas praias do RS ou mesmo SC, esquente-se nas praias do Nordeste. Saia da piscina artificial do seu clube e descanse nas piscinas naturais cercadas de arrecifes. Deixa esse português agauchado, as bombachas e arreios e desenferruje o seu inglês, francês , italiano e espanhol.

A vida é muito curta para ficar estagnado dentro dessa prisão mental , ano após ano, com as mesmas pessoas, as mesmas conversas e os mesmos lugares.

Onde há diversidade, o sangue da vida e da natureza correm irrestritos. E sem sangue nas veias e na vida, você já está morto.

 

 

 

 

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Esqueça os Medicamentos e a Psicoterapia

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Antes que você comece a ficar confuso, deixe-me explicar primeiro.

O título é uma provocação para sua curiosidade.

Não abandone os medicamentos, nem interrompa a sua psicoterapia.

Ambos são benéficos , quando adequadamente indicados.

Mas o tratamento mais completo para muitos transtornos mentais, principalmente em quadros depressivos e ansiosos, que vêm acompanhados por alterações cognitivas , como déficit de memória, desconcentração, desatenção e dificuldades de raciocínio, são

-EXERCÍCIOS FÍSICOS AERÓBICOS REGULARES-

Isso mesmo. A prática de exercícios físicos aeróbicos durante 30 minutos de 4 a 5 vezes por semana, depois de 12 semanas, produz resultados mensuráveis nos níveis de ansiedade e depressão dos pacientes. Mesmo quadros como a Síndrome do Pânico melhoram com os exercícios, algo que antigamente se acreditava contraindicado, pelo “suposto risco” de desencadear ataques de ansiedade.

Mas não pode ser qualquer exercício físico. Depois da  autorização do seu cardiologista, procure atingir a meta de praticar exercícios físicos intensos. Não adianta caminhada “de olhar vitrines de lojas”. É necessário algo mais vigoroso, mesmo que dure alguns minutos. O ideal é intercalar caminhada rápida com corrida.

Os medicamentos psicotrópicos  regulam os neurotransmissores: serotonina, dopamina e norepinefrina. Atuam diretamente na correção dos sistemas biológicos, principalmente a região cerebral chamada Sistema Límbico, que é responsável pelas respostas emocionais e de medo. Como essa região é mais primitiva evolutivamente, reage a perigos reais ou imaginários. Os medicamentos antidepressivos e estabilizadores de humor esfriam o Sistema Límbico.

As psicoterapias atuam inicialmente na parte psicológica, ajudando a modificar a autoimagem, os pensamentos depressivos e pessimistas ou ansiosos e catastróficos. Essa mudança psicológica ocorre através de uma região mais evoluída, que denominamos Córtex Pré-Frontal. Nessa área, que está localizada atrás da sua testa, ocorrem os mecanismos cerebrais mais sofisticados, como raciocínio analítico, planejamento, memória operacional e controle de impulsos.

Em síntese, os medicamentos corrigem o desbalanço neuroquímico, com uma ação mais física e relativamente mais rápida, partindo do Sistema Límbico e chegando até o Córtex Pré-Frontal. Denominamos  de correção “botom- up”. As psicoterapias corrigem o desbalanço psicológico, com uma ação mais lenta, mas com resultados mais duradouros, inclusive com mudanças na estrutura e no funcionamento cerebral. Denominamos essa correção de “up-down”.

Então, você entende muitas coisas a partir de agora. Primeiro , entende por que os tratamentos medicamentoso e  psicoterápico em associação produzem resultados mais eficazes, comparativamente aos tratamentos isolados. Você está proporcionando ao cérebro uma ajuda sinérgica, de cima para baixo ( up-down) e de baixo para cima( botom-up).

Mas os EXERCÍCIOS FÍSICOS AERÓBICOS REGULARES fazem tudo isso simultaneamente e a longo prazo !

Eles corrigem os neurotransmissores serotonina, dopamina e norepinefrina. Eles estimulam o córtex pré-frontal, melhorando todas as funções executivas( raciocínio, memória, concentração), eles acalmam  o Sistema Límbico através da liberação de endorfinas e neutralizam os efeitos do estresse crônico ao adaptarem o organismo a um estresse agudo induzido por curtos períodos de tempo.

Além disso, os exercícios físicos regulares incrementam o aporte de oxigênio no cérebro, facilitando a sua irrigação sanguínea , aumentando em 200 % a liberação de BDNF, o fertilizante cerebral, que estimula o crescimento de neurônios no hipocampo( responsável pela memória) e no córtex pré-frontal.

Não vou falar sobre os  benefícios cardiovasculares dos exercícios físicos, pois o seu clínico, geriatra ou cardiologista já devem ter lhe informado  a respeito. Mas os benefícios cerebrais e mentais superam quaisquer benefícios físicos.

Em 3 meses  eu reduzi 12 kilos. A resposta que tenho dado aos meus pacientes é a mesma: associe mudança alimentar com exercícios físicos aeróbicos regulares e você terá resultados “milagrosos”, sem precisar do uso de medicamentos com a finalidade de emagrecer e manter-se magro(a). E quanto ao meu cérebro, ele está ótimo!

Encontro da Turma 300

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Depois de 25 anos, a Turma 300, do Colégio Marista de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, reencontrou-se no dia 31/10/15 na cidade de Santo Ângelo, na sede campestre do Clube Gaúcho.

Nós somos as nossas memórias. Mas mais do que as memórias acumuladas durante a vida, somos as memórias revisitadas. Cada reedição de um livro, algumas palavras são substituídas por outras, capítulos inteiros são reescritos, outros são suprimidos. Da mesma maneira, o reencontro da nossa turma do Ensino Médio reeditou as nossas memórias.

Vou descrever aqui as minhas emoções. Ao chegar à festa, a primeira expectativa foi saber qual era a aparência física dos colegas. Quem mudou? Quem continuou parecido? Quem não mudou nada? Quem engordou? Quem emagreceu? Quem deixou a barba crescer?  Imediatamente reconheci a maioria deles, pois poucos mudaram a ponto de ficar excêntricos. Senti um misto de alegria, estranheza e familiaridade.

Rever antigos colegas é viajar no tempo, convidando o passado a confraternizar com o presente. E como todos mudamos com a passagem dos anos, nossas personalidades transformaram-se também. Será que os outros colegas sabiam disso? Dei um sinal da minha mudança, que logo foi notado. Eu compareci ao encontro! Vinte cinco anos atrás eu não ia a festas, participava pouco da vida da turma, só estudava.

Muitos abraços, churrasco, chopp, beijos, risadas, gargalhadas, o melhor que existe no coração de cada um. Filhos correndo pelo salão, pela grama, esposas apresentadas, esposas recentes reapresentadas. Minha esposa não pôde ir, pois viajou para Florianópolis. Ela teria adorado a turma, como a conheço bem.

A turma 300, para quem ainda não sabe, marcou a história. No início da década de 90 alcançou reconhecimento na Congregação Marista do Brasil, pelo maior índice de aprovação em vestibulares, incluindo os primeiros lugares. Para quem lê, esse feito pode parecer um lugar-comum hoje em dia, mas foi um fenômeno na época.

A turma 300 se caracterizou pela maior diversidade de talentos intelectuais e físicos, com uma união que não se encontra facilmente nos dias atuais. Cada individualidade compunha um grupo diferente, mas cada grupo, sem exceção, compunha o grupo maior, a nossa Turma 300, sempre com respeito, reciprocidade e bom humor.

Até as minorias exóticas para idade, na qual me incluía, eram acolhidas. Claro que o preço a pagar foi ser motivo de gozação, brincadeiras, sarcasmo, olhares antagônicos ou simplesmente tolerância. Mas nunca houve exclusão.

Jamais as palavras conseguirão expressar os sentimentos e as emoções com a pureza necessária para eternizar um momento. Mas tinha que registrar aqui o nosso reencontro. Hoje acordei, ainda com a ressonância dos sons e os flashes das imagens de ontem, frescos na minha memória. Fiquei curtindo. Sorrindo sozinho. Minha vida e a vida dos meus colegas foram reescritas, e do nosso reencontro saímos mais enriquecidos, mais alegres, mais felizes, mais vitoriosos. Honramos a vida com toda a nossa entrega!

Desejo, do fundo do meu coração, que todos sigam suas vidas com saúde, com a plena realização dos seus sonhos, e que não precisemos esperar mais 25 anos para o próximo reencontro. Confraternizar é uma escolha que podemos antecipar a qualquer hora, e compartilharmos mais momentos aprazíveis e inesquecíveis como os de ontem.

Um abraço fraterno a todos ! Muito obrigado por tudo !

Analfabetismo Científico

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Ao  fitar a imensidão do Universo, do qual nossa galáxia é apenas um ponto insignificante, onde fica o Sistema Solar, no qual está encravada a Terra, que povoamos no momento presente, começo a minha reflexão sobre a Ciência…

Para se interessar por Ciência, você não precisa ser um cientista. Mas se tiver a curiosidade insaciável de uma criança, ao se encantar com o desconhecido, sua jornada pelas descobertas científicas,  sempre vivas e mutantes, será uma viagem renovada . Há muito o que aprender na nossa breve estada neste planeta.

E diante dessa beleza que se desdobra com as suas múltiplas possibilidades, muitas pessoas fecham as suas mentes. Umas por falta de curiosidade, outras por preguiça mental, outras por defenderem interesses opostos à Ciência. O mundo é carregado nas costas pelas descobertas científicas, que menos de 1% de estudiosos dedicados produzem. Enquanto isso, outras instituições parasitárias continuam suas trajetórias, invadindo o campo científico com mitos, interesses religiosos e interesses políticos.

Não estou dizendo que a Ciência é a resposta para todas as dúvidas que assolam a humanidade. Existem questões existenciais para as quais a Filosofia e até a Religião podem opinar. Mas são questões muito específicas, que podem ser respondidas pelo exercício da razão ou  pela fé. Mas no fim essas questões, na prática, continuam sem resposta comprovável. A Ciência vai atrás de evidências para as questões que podem ser respondidas. Essa honestidade pura é linda!

Quais foram os benefícios  concretos que a Religião e a Política agregaram ao mundo? Em contrapartida, como estaria a sua vida hoje sem as descobertas científicas dos últimos 400 anos? E como estaria a sua qualidade de vida, se muitas  dessas descobertas científicas não tivessem gerado avanços tecnológicos? O que quero dizer é que a Ciência , em última instância, faz a diferença!

Mas cada vez mais a Política e a Religião, no seu parasitismo, usurpam a beleza e  a contribuição da Ciência, intrometendo-se no seu escopo. E as pessoas ideologicamente manipuladas pela Religião e pela Política viram as costas para a Ciência. Que tragédia para os destinos do nosso pequeno mundo nesta vastidão do Universo. Pessoas optam pelo obscurantismo , pela ignorância autoimposta, pela preguiça mental, pela desistência diante dos mistérios do cosmos, da vida e do futuro.

Admiro os cientistas que estão numa batalha feroz contra essa era de ignorância científica que perpassa a vida da população. É um problema mundial, mas provavelmente mais agudamente brasileiro. Sem as respostas fornecidas pela Ciência, continuaremos estagnados. As descobertas que ainda nos aguardam no futuro só poderão ser feitas pela  Ciência. Quem mais? Os governos? Os políticos? Os religiosos? Todos eles já escolheram um lado, o da ilusão, pelo menos em relação ao mundo natural. E eles já  têm todas as respostas prontas! Basta acreditar… neles!

Vivemos numa era em que é imperativo resgatar a importância da Ciência em nossas vidas. E quanto mais aprendermos  como o Universo funciona, menos vulneráveis à influência arbitrária do homem estaremos. Essa liberdade de saber nos possibilita  escolher de maneira informada. Todos os outros caminhos são fumaça, nas mãos de homens, não nas mãos da natureza. E os homens são falíveis e corruptos. Mesmo os homens bem-intencionados são cegos, sem os instrumentos da ciência.

Deixe a Ciência fluir na sua vida. Comece a se apaixonar por todos os campos do conhecimento. Mas comece pelas ciências puras, como a Física e a Química. Quanto mais longe das conjecturas humanas, em nível mental, melhor. Enamore-se da natureza e suas belezas. Já olhou o céu hoje?

A Ilusão da Realidade Fabricada

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Vivemos numa “matrix”. A sensação é de que sempre estão acontecendo mais coisas do que conseguimos perceber. E provavelmente isso é resultado da ação deliberada de grupos , cujos interesses sobrepujam os interesses da coletividade, e também porque o mundo, no nível evolutivo em que se encontra, não está preparado para perceber além das aparências.

Dentro desse cenário, algumas pessoas questionam o “status quo “. E essas vozes isoladas não são fortes o bastante para abalar o sistema vigente. É mais um exercício de resgate do próprio senso crítico, de ampliação dos horizontes perceptivos, do que uma tentativa de mudar o mundo. Como poderíamos mudar o mundo, se os seus habitantes estão ocupados com outros interesses mais mundanos, que nada tem a ver com  evolução?

” Evolução ” é um termo aplicável a grupos, espécies, não pode ser promovida individualmente. Se mais pessoas estivessem comprometidas com a sua mudança pessoal, ou como me disse um estudante de filosofia, na sua metamorfose, a longo prazo teríamos uma chance de transmutação global. Mas esse horizonte está tão longínquo, que caracteriza verdadeiramente uma utopia.

Algumas pessoas sentem que estão enredadas num sistema que controla as suas vidas, que  as condiciona a ter determinadas experiências, a acessar determinados conhecimentos, a pensar de determinada maneira. Nesse propósito oculto de conservar as coisas como estão, a mídia , os políticos e os governos jogam em posições estratégicas. Mas não adianta falarmos, ninguém escuta.  Mesmo que falemos, ninguém acredita. E sempre vão pairar dúvidas  no ar. Nunca teremos certeza porque ” as raposas não vão revelar os bastidores do galinheiro”.

Podemos escrever um post. Falar em rodas de amigos. Pesquisar em busca de respostas. Ou mantermos  vivas as perguntas. É um processo referente ao mundo, mas que traz dividendos apenas pessoais até o momento. Quando investigamos por nós mesmos, além de encararmos outras realidades, outras dimensões, outros ângulos, somos invadidos por percepções que nunca teríamos espontaneamente. Ampliamos  a nossa visão, ficamos mais inteligentes e  até sábios. E esses estímulos inesperados nos fazem menos escravos da opinião implantada por interesses escusos.

Vivemos numa “ matrix.” Quando me pego tentando espichar a minha mente a universos desconhecidos, sinto que uma força bloqueia essa intenção. Ou somos limitados mentalmente para enxergar o desconhecido, por restrições sensoriais e barreiras genéticas, ou realmente existem forças que promovem uma lavagem cerebral constante em nossas vontades e percepções. Quando me distraio, estou pensando em coisas inúteis. Quando me concentro demais, o bloqueio perceptivo lança uma cortina sobre meus olhos. Parece que teremos que percorrer o caminho árduo da descoberta indireta, da realização de experimentos, elaboração de hipóteses e tentativas de comprovação ou refutação.

Outra maneira de promover o sistema vigente, é a campanha em prol  dos substitutos imaginários para a realidade não-percebida. Nossa sociedade colocou o trabalho num pedestal. ” O trabalho dignifica o homem”. A busca pela prosperidade material virou o novo deus da atualidade. Eu concordo que o trabalho é uma fonte importante de auto-realização e de contribuição, mas para quem? Certamente não é para os trabalhadores explorados, que ganham uma miséria em troca de seu tempo precioso. Poucas pessoas concordam que o trabalho, nas condições atuais, promove dignidade. Por exemplo, que valor tem o trabalho que desencadeia doenças físicas e mentais nos seus trabalhadores?

Toda vez que o sistema vigente possibilita  às pessoas  que encontrem as suas próprias ilusões, de uma maneira constituída legalmente e fomentada socialmente, os poderosos, a casta, “eles”, sejam quem forem os operadores desses cordéis, tiram férias do esforço de enganar ativamente. Eles estimulam as pessoas a se engarem voluntariamente.  E poucas pessoas  têm o hábito saudável de questionar as próprias crenças, de desconfiar das próprias ideologias. Em resumo, elas acham que estão certas, e o outros estão errados. Assim, elas preparam as suas próprias armadilhas de alienação.

Estas palavras são gotículas. E no ritmo em que caminha a humanidade, não chegaremos nem no rio mais próximo. Mas para aqueles que são inquietos por natureza ou por constituição mental, podemos espraiar nossas ideias, como mensageiros da nossa prédica. E teremos uma vida mais rica, mais curiosa, mais combativa, menos robótica, menos massificada, mais humana , mais singular.

Questionar a tudo e  a todos, com o espírito libertário dessa curiosidade inata, agregará novas paisagens em nossa vida. E isso enriquecerá nossa passagem  aqui na Terra. Podemos, de alguma forma, ser livres dentro da prisão. Livres em nossas mentes e corações.

A Volta dos Sofistas Modernos

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Os sofistas se compunham de grupos de mestres que viajavam de cidade em cidade realizando aparições públicas (discursos, etc) para atrair estudantes, de quem cobravam taxas para oferecer-lhes educação. O foco central de seus ensinamentos concentrava-se no logos ou discurso, com foco em estratégias de argumentação. Os mestres sofistas alegavam que podiam “melhorar” seus discípulos, ou, em outras palavras, que a “virtude” seria passível de ser ensinada.( WIKIPEDIA)

Sócrates nos admoestou para o dia… em que os sofistas iriam chegar. E eles teriam roupagens de acordo com a sua época. E eles cobrariam para concordar com qualquer crença que nosso dinheiro pudesse pagar. Isso não era sabedoria, mas adulação. A verdadeira sabedoria está nas perguntas, o método socrático, infindo de perguntas. Os sofistas modernos estão com as respostas prontas, manufaturadas pelo verniz do entusiasmo, da verborragia incessante, da teatralidade para as massas. E a sabedoria, o concepto extraído pelo fórceps da reflexão dolorosa, é solitário, evolutivo e nunca um lugar-comum. Lembrem-se de perguntar: a quem serve tudo isso?

Vivemos na cultura do tapa-buraco. Se os arautos da autoajuda, do sucesso instantâneo, da reversão da crise, do pensamento positivo prosperam é porque o mercado está sedento deles. Não se pode falar uma linguagem avançada num meio onde a média se comunica através de um pensamento simplório. A simplicidade da vida não pode ser confundida com superficialidade. Deixar de pensar, de refletir, de questionar, de perguntar, não é  viver de maneira simples, mas de maneira superficial. E o valor da vida está mais no fundo! Na evolução dos sentimentos e dos pensamentos.

É muito irritante conversar com alguém que não absorve a amplitude dos conhecimentos. Eu já fui simplório, então entendo que irritei muito as pessoas ao meu redor. Era simplório e superficial por imaturidade. Não tinha um cérebro malandro para descrer com ceticismo saudável. Não enxergava o quadro completo. Então eu “chutava” respostas a esmo. E escutar besteira agride os ouvidos preparados. Eu falei besteira sobre todos os assuntos que desconhecia, que eram a maioria. Mesmo os professores, que supostamente são pagos para responder a dúvidas de seus pupilos, não aguentavam as minhas perguntas. Não os recrimino hoje. Achava-os agressivos outrora.

Hoje sou psiquiatra. Durante uma década fui um psiquiatra idiota, do ponto de vista de amplitude de visão do mundo. Então, ao invés de dar “conselhos”, me dediquei a estudar o meu campo de trabalho de maneira técnica. Podia aprender a manusear medicamentos, e a minha experiência atendendo ia me fazer um profissional diferenciado. E acredito que alcancei isso com o tempo. Hoje preciso ir além, caminhar além da técnica e chegar à questão existencial. Tomam-me duas a três consultas para estabilizar casos clínicos complicados, através da alquimia farmacológica. O restante do tempo adiante pode significar uma revisão em alguns meses ou uma conversa inteligente na próxima semana. Esse encontro vai ser marcado por vontade do meu paciente e a minha, nunca será uma decisão unilateral. Algumas vezes assumo casos novos de psicoterapia quando constato que posso ampliar a percepção do paciente que está sedento de mergulhar no seu mundo interior. Quando alguém tem perguntas, uno-me a ele para perguntar também!

” Para encontrar a verdade, procure a mentira”, nas palavras de Jim Diamond. Parafraseando-o, digo que para encontrar a profundidade, procure a superficialidade. Para descobrir o profissional, procure o picareta. Para descobrir as perguntas inteligentes, procure as respostas tolas. Estamos sempre num contínuo processo de exclusão de alternativas. E quando assumo novos casos de psicoterapia, é porque o paciente tem essa curiosidade de perguntar de maneira inteligente. E é requerido que pergunte de maneira curiosa apenas. A inteligência é um atributo que aumenta com o tempo de psicoterapia. E desses encontros, entre momentos de emotividade e lágrimas, de gargalhadas e reflexões, uma pessoa vai nascendo e abandonando a velha pele que a recobria de ingenuidade. Essa pessoa começa enxergar as outras pessoas e o mundo com mais clareza, a partir da sua própria autodescoberta.

E estamos lá, dia após dia, mergulhando na mente do indivíduo , em busca de percepções, “insights”, reestruturações mentais, novas descobertas, aceitação de desafios, controle dos medos, superação das inseguranças, autoaceitação, flexibilização. Decorrem meses entre a primeira sessão e o primeiro passo completo rumo à liberdade de pensamento. Levamos meses para que alguém ouse desvencilhar-se das correntes sociais, dos arames familiares, das culpas imputadas a si por estranhos e pelos íntimos. E  cada sessão é  mais um tijolinho  nesta construção. Nunca será um “Extrem Makeover“,  aquele programa de TV americano que destrói uma casa e constrói um palacete no lugar. Estamos mais para o programa do Luciano Huck, com uma casinha mais limpinha com  os móveis da Tok Stok.

Então vêm os sofistas modernos e as suas fórmulas mágicas. Oferecem produtos miraculosos, como a panaceia para solucionar tudo. Se você está falido, isso é resultado da sua mente. Isso eu sei, mas não vou oferecer o meu remédio para a sua doença. Preciso ajudar você a enxergar a própria doença e curá-la. Se você está infeliz, leia este livro de autoajuda e seja feliz! Se você é uma plastra, participe do nosso seminário e seja magnetizado de entusiasmo. Se você gasta dinheiro com terapia, que leva tempo, é difícil e não tem garantias, gaste neste seminário de fim de semana, caminhe sobre brasas, salte de árvores sobre ombros amigos, confie no seu potencial, nade debaixo de arames, siga adiante, uhauuuuuuuuu!!!!!

Antes que eu seja acusado de radicalismo, quero dizer que já passei por isso! Por essa você não esperava, não é? Sou um adepto de autoajuda em recuperação! Sei que esses seminários são maneiras metafóricas de acordar esse ” gigante interior” que você mantém adormecido. Uns me disseram para relaxar, o sol nasceu para todos! Deixa os gurus ajudarem as pessoas. “Despertá-las”. “Você, doutor, vai lidar com outro público, de pessoas problemáticas, neuróticas, introvertidas, chatas. “Outros me dizem que cada pessoa busca a cura de que necessita, incluindo aí as religiões, as seitas, o curandeirismo, a opinião da vizinha, a benzedura, o xamanismo, o esoterismo. ” Deixo-os em Paz!”

Então, me recomponho e penso que é meu dever me indignar. Mas posso ir até um limite. Mais do que isso, está fora do meu direito. Posso me indignar de ver que existem pessoas que se divertem com a esperança alheia, através de soluções imediatistas. “Faça isso e tudo ficará bem.  Não faça aquilo e tudo ficará mal.” Parece tão incrível como essas pessoas são o máximo. Fico indignado por ter que trabalhar dia após dia em sessões terapêuticas, enquanto outros caminhos mais instantâneos( e rentáveis) produzem resultados infinitamente mais ilusórios. E quando vejo pessoas usando esses recursos milagrosos, penso que cada pessoa tem um tempo para despertar. E que vender entusiasmo para quem está perdido é meritório também. Toda a ajuda é bem-vinda.  Puxa, não consigo concordar com a frase anterior, que tentei escrever.

Não acredito que toda a ajuda é bem-vinda. Algumas supostas ajudas são ilusórias. Eles atrasam a busca da verdadeira ajuda ou ,pelo menos, a ajuda mais realista. Nem todos os gurus são sábios, a maioria é de empreendedores que vão enriquecer repetindo frases de efeito e mantras de superação. E se o seu dinheiro vale isso, não há nada de errado em gastá-lo. Mas a mudança que eu vislumbro  é mais profunda, menos miraculosa e mais verdadeira. Ela exige tempo, esforço e dedicação para acontecer.

Muitos pacientes cansam do caminho longo da psicoterapia e buscam o caminho curto do mais recente seminário de fim de semana. As ilusões são sempre mais doces. Eu já me embriaguei nelas. Me ajudou por uma semana e depois voltei para o meu mundo real.  Imagino que esses pacientes voltarão também. Se não voltarem para a terapia comigo, terão que  voltar para o mundo real que os espera. Se não voltarem para terapia comigo, posso afirmar para mim mesmo que o que ofereço não é divertido para a maioria. Mudança causa dor. Então, eles preferiram fugir… Prefiro essa explicação a culpá-los de neuróticos, introspectivos, complicados e chatos! Não posso enxergar os meus pacientes com as lentes de seus gurus.

A Felicidade está no Cérebro, mas não na Mente

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A Mente está contida no cérebro. Sem cérebro não há mente. Esse é o paradigma da Ciência.

A Felicidade está contida no cérebro. Mas não temos certeza de que a Felicidade  está contida na mente.

Antes que você fique mais confuso, vamos elucidar alguns pontos .

O cérebro é um órgão que produz, através de mecanismos complexos, a nossa autoconsciência. Existem diferentes regiões cerebrais que se comunicam através de vias nervosas. Quando pensamos, lembramos, agimos, percebemos, sentimos, falamos, escutamos, choramos, rimos, sentamos, levantamos, essas áreas cerebrais “acendem”.

Quando você está feliz, que regiões que se acendem? Não existe uma região única, pois vai depender do conteúdo que está na sua consciência no momento. Digamos que você lembra de alguma imagem mesclada com excitação: uma imagem erótica. Uma região posterior na sua cabeça, a região occiptal vai acender, porque está relacionada com imagens e uma estrutura chamada amígdala cerebral vai acender, relacionada com afetos e emoções.

As coisas são mais complexas do que isso, pois essas duas regiões são as que mais se acendem, pois o fluxo de sangue e glicose( combustível cerebral), vai inundar mais essas duas regiões, e aparelhos de neuroimagem funcional vão medir a atividade aumentada nessas áreas. Obviamente que o resto do cérebro continua recebendo sangue e glicose e está funcionando também, mas o fluxo vai ser mais intenso nessas duas áreas, porque lá está acontecendo a produção de imagens e emoções.

Agora digamos que você tenta guardar o número de telefone de uma moça que acabou de conhecer ou a sua amiga tenta guardar o número de  um ” gentleman”, que também acabou de conhecer. Neste momento, o sangue vai inundar a região atrás da sua testa, o córtex pré-frontal, responsável pela concentração e pela atividade da memória de trabalho, responsável pela memória de curtíssimo prazo( segundos). Imagino que o sangue também vai esquentar a mesma amígdala cerebral, pois existe a excitação do flerte.

Antes que um neurologista ou neurocientista me apedreje, quero ressaltar que estou sendo bem básico. Você pegou a ideia de que o cérebro funciona com 100 % da sua capacidade e não 10 % como diz a lenda dos livros de auto-ajuda. Só que as áreas mais ativas mudam conforme a especificidade da função. Temos cérebros altamente especializados,  com áreas responsáveis por funções diferentes, mas com milhões de vias nervosas de intercomunicação.

A Felicidade está contida no cérebro. Isto é , regiões cerebrais , com diferentes conteúdos , vão acender. Isso vai depender da experiência de cada pessoa. Mas não existe uma região única.

A Mente está contida no cérebro, ela pode até saber tudo sobre a Felicidade( através da leitura de um livro de auto-ajuda, por exemplo), mas não quer dizer que ela seja a produtora da Felicidade.

Pesquisas em neuroimagem mostram justamente o contrário! Quanto mais produzem conteúdos na mente, menos felizes as pessoas ficam! Quando uma pessoa fica divagando, isto é, criando conteúdos mentais afastados da experiência do momento, o que chega a acontecer em quase 50 % dos pensamentos gerados durante o dia, duas regiões se acendem: o córtex pré-frontal medial e o córtex parietal medial.

Essas duas regiões são as mesmas que se acendem quando uma pessoa fica no mundo da lua! Ou quando  ela fica imersa em aspectos narcisísticos, as ditas “autorepresentações”, a análise das coisas em relação a si mesma. Ou quando  ela está com a cabeça desocupada, “descansando”.  É a região que forma uma rede padrão de repouso da atividade cerebral.( “default mode network”).

E quando a mente está divagando, as pesquisas mostram que essa mente divagante está infeliz. Se a mente é infeliz no seu estado “default”, a  Felicidade não está contida nela.

Então, a meditação de atenção plena, a chamada ” mindfulness”, propõe justamente observar a dança dessa mente divagante, sem entrar no baile. Meditar é prestar a atenção no momento, sem entrar na dança. É escutar a música, o rodopio dos pensamentos, o esvoaçar dos vestidos das emoções, os pés pisados no salão, o congestionamento de pensamentos incessantes, sempre como um observador isento de julgamentos. A dança está na mente. A observação está na consciência que transcende a mente.

O estado “default” é de ” mindlessness“, isto é, um estado em que a mente é divagante em 50 % do tempo ou mais. E não nos admira que a infelicidade seja corrente na vida cotidiana.

Felicidade é um conceito muito amplo. Mas subjetivamente a sensação de infelicidade pôde ser percebida nas pessoas imersas em divagações.

Vivemos numa era em que a tecnologia mantém todo mundo  ligado 24 horas por dia. Bombardeio de informações por todos os lados , excesso de estímulos,  dedicação à  múltiplas tarefas, tudo isso produzindo estresse.  Isso acelera a mente a ponto de ela começar a divagar cada vez mais. Isso vai ativar  justamente as áreas que parecem produzir um estado crônico de Infelicidade.

Talvez isso possa explicar parcialmente a epidemia de depressão no mundo.